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A Pequena Guerreira: o livro que te inspira

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Enquanto eu fazia maratona de Gilmore Girls na minha adolescência, Samia corria…

Apesar da guerra, Samia corria.

Corria de burca, de hijab, descalça ou de estômago vazio. Ela fazia musculação com garrafas de refrigerante cheias de areia e tijolos largados no canto da obra, corria pelo seu pai, seu amigo, seus sonhos e por todas as mulheres da Somália. O objetivo dela era através do esporte liderar a libertação das mulheres somalis da escravidão e foi por isso que ganhou o apelido de pequena guerreira.

Sua história é impressionante. O romance baseado na vida da atleta é comovente e não fui capaz de me distanciar da história como muitos leitores profissionais fazem, chorei e tive até crise de ansiedade tentando imaginar o que eu faria se estivesse no lugar da menina.

“A garotinha de dezessete anos magra feito um prego que vem de um país em guerra, sem um campo e sem um treinador, que luta com todas as suas forças e chega por último. Uma história perfeita para os espíritos ocidentais, entendi naquele dia.”

O livro começa com ela ainda bem crinça, apenas 8 anos de idade, brincando de correr com seu melhor amigo, o Ali. À medida que ela vai crescendo o esporte vai ganhando cada vez mais importância para ela e Ali, que não ligava tanto assim para isso, passa a se auto-intitular treinador. Porém, o afastamento dos dois é inevitável, a Somalia vive uma guerra civil com a liderança de um grupo terrorista chamado Al-Shabab e os dois personagens pertenciam a grupos étnicos distintos.

Samia continuou a treinar sozinha e sem patrocínio, sem nenhuma ajuda, na verdade, e mesmo assim chegou nas Olimpíadas da China. Com isso ganhou alguma fama e a possibilidade de se mudar para um lugar melhor, mas nada a fazia ir embora da Somália, ela tinha o objetivo libertar seu povo e ir para longe não ajudaria em nada. Portanto ela continuou vivendo na miséria, até que as regras impostas pelo grupo extremista ficaram mais rigorosas e ela se viu dividida entre a família e o esporte.

“O cinema criava e alimentava sonhos, e por isso foi fechado.”

Então ela resolveu fazer A viagem, se colocando nas mãos de traficantes de pessoas que prometiam um futuro melhor. Futuro que muitos não chegaram a alcançar, inclusive a própria Samia — o que está escrito na orelha do livro, então não é nenhum segredo. O momento de fuga dela é o mais intenso da história, penso que eu teria sentado no chão e chorado até toda a água do meu corpo ser drenada. Mas, honestamente, posso imaginar o que for, nunca vou saber de fato o que fazer diante da possibilidade iminente da morte até estar nessa situação. Talvez eu seja mais forte do que imagino, ou talvez eu pense em Samia e consiga retirar forças de onde achava que não tinha mais.

“Um minuto parece pouco, mas naquelas condições se torna eterno. Dentro de um minuto você faz caber tudo de que precisa. Aprende que um minuto pode salvar sua vida. Não precisa de mais.”

Eu não sei o que dizer mais sobre A Pequena Guerreira, apenas sentir. Por mais clichê que isso pareça é pura verdade. Assim que li as últimas palavras fechei o livro no colo e encostei a cabeça no sofá, para deixar tudo aquilo que estava dentro de mim se acalmar enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto — bem, elas não escorriam muito, pois meu cachorro odeia me ver chorando e começa a me lamber incessantemente, mas deu para entender o que eu queria demonstrar.

 

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