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Texto da Angústia

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Um dia ela socou o espelho, apenas porque não podia bater em si mesma. O sangue jorrando lhe deu alívio, teve a sensação de que com aquele líquido vermelho escorria também gordura.

Negou fazer um curativo, ficou apenas ali parada vendo a pia ser tingida de vermelho, e como se com a saída do sangue ficassem apenas hormônios, começou a chorar. Não de dor, mas de alguma outra coisa…

Era gorda, muito gorda, apesar de ter apenas 50 quilos. Já havia deixado de comer, só não parava de beber porque a vida era dura demais. Mas, a medida que o estômago ficava cada vez mais vazio era preciso de menos cervejas para ver a realidade pulando da janela. Sendo assim, fazia economia.

Em alguns momentos se sentia fraca, “mas quando foi que tive força?”, ela pensava. Nunca sabia para onde ir. Então apenas seguia, sempre para trás jamais para frente. Desde que o outdoor lhe caíra na cabeça, uma barriga tanquinho de 3 metros ofuscou sua visão, tinha seis anos na época e teve certeza de que dessa forma não se encaixaria.

Uma cicatriz deformava seu peito, e isso parecia ofuscar seus dias, era apenas um defeito, mas sempre latejava por debaixo da blusa. Onde será que isso pararia? Era normal até que decidiram que era maluca!

(imagem via pixabay)

Milka

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Milka

Meu primeiro amor foi assim, meio atordoado
À primeira vista
E de coração apertado

Com sua cor de café pingado
Olhos verdes e jeito safado
Derreteu a vontade do mais turrão
Que um dia disse que jamais abriria mão

Foi desse modo, direto para mim
Como se me conhecesse de outra vida
Ou algo afim

No primeiro dia visitando o canil
Foi por ela que meu peito explodiu
Me agachei
Na onda da fofura mergulhei

Lambeu minha bochecha e mordeu meu nariz
Logo soube que jamais seria tão feliz

 

Cifrão

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Post Cifras

As minhas lágrimas, quanto valem?
Qual o preço dos meus fios que caem?
Adicione aí o valor de amar meu corpo
Para eu andar leve sem me carregar como estorvo

Quanto custou esse seu orgulho todo?
Em qual das suas planilhas consta meu esboço?

Quantifique meu cabelo
Precifique meu rosto
Faça contas exatas de tudo que é do teu gosto

Só que do carro quem nem sei a marca
Eu queria apenas a jornada para ser amada
Não precisa ser longe, não precisa ter nada
Somente um momento em que eu não seja capitalizada

Que da minha força nasça a minha anarquia
E que meus sonhos deixem de ser fantasia

Ela

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Na cadeira do computador ela subiu 
O objetivo era atingir cada vez mais alto
E como em muitos momentos da vida ela sucumbiu
Estatelada no chão perdeu o ar

Dessa vez não era o peso de sua alma que lhe impedia de respirar
As costelas quebradas perfuraram seu pulmão
Uma dor finalmente palpável que lhe sossegou o coração
Paralisada no chão fitava o teto
Sempre quis a casa como aquele ambiente quieto
Sozinha agora não tinha ninguém para lhe socorrer
E tudo que pensava era em como iria morrer

No entanto os ossos dilacerados eram só uma representação
Daqueles pensamentos que se tornaram uma auto prisão
Começou a pensar em tudo que já tinha passado
Na chance de mudar aquilo no que havia se transformado
Costela por costela
Passo por passo
Demolir para reconstruir