Arquivo mensal: junho 2016

Projeto GoT — Matando Saudade

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GoT I(imagem via BagoGames)

Vocês já sentiram necessidade de mais? Preciso ler mais sobre essa história? Preciso conhecer mais esse personagem? Eu simplesmente preciso de mais! No entanto, nem sempre temos a possibilidade de suprir nossas necessidades (e carências) literárias. Desde o começo dessa nova temporada de Game of Thrones eu tenho sentido essa urgência de ir além daquilo que eu já tinha. Sempre depois de cada episódio eu vou ler comentários em fóruns e confabular teorias, mas de fato ainda não tinha lido os livros.

Agora essa necessidade se tornou irredutível, mesmo lendo postagens, conversando sobre a trama e vendo as fotos de todos os atores em suas redes sociais. Então decidi que era o momento certo para eu dar um passo para trás, na verdade 5 passos, e começar a leitura de toda a saga desde o seu princípio. Depois de comprar o primeiro volume, fui contar para meu irmãozinho sobre meu novo projeto e ele fez uma pergunta típica de um não leitor:

— Mas você vai conseguir ler um livro que você já sabe a história?

Bem, para começar não sei exatamente a história, já que a série diverge em vários pontos dos livros. E segundo lugar, se eu tivesse esse problema não teria lido On The Road do Kerouac 5 vezes ou Harry Potter duas.

Prometi para mim mesma que só leria 50 páginas por dia, dessa forma daria continuidade a outras leituras do blog. Mas não deu muito certo, já que na primeira vez que sentei para ler fui até a página 150. Gente, vale muito a pena! Deixo aqui minhas primeiras impressões:

  1. Foi muito bom voltar a saber sobre o Robb Stark, eu amo esse personagem e adorei interagir mais com ele.
  2. Na série sabemos que Jon e Arya eram próximos, mas não tão unidos como são nos livros, foi uma delícia ler sobre a interação deles.
  3. As lembranças de Ned em relação a guerra e aos parentes já falecidos. Ele vive remoendo o passado e acredito que é através de suas lembranças que saberei mais sobre os membros da família que estão mortos.
  4. A descrição real de cada personagem. Não que o elenco não tenha sido perfeito e não atue com maestria, mas a aparência deles no livro importa muito para correlacionar famílias e parentes, um bom exemplo disso é Tyrion, o anão.
  5. Entender como os nortenhos sobrevivem ao frio intenso. Foi fundamental para minha compreensão saber que Winterfell foi construído por cima de águas termais e que, por exemplo, por dentro das paredes do quarto de Catelyn corriam águas quentes e por isso o aposento dela era um refúgio do frio das neves de verão.

Só que nem tudo são flores e algumas coisas me chatearam na edição que comprei. Pensei que um livro tão amplamente divulgado e conhecido, traduzido há algum tempo e já na 4º edição (pelo menos no meu exemplar) ainda teria tantos errinhos de tradução e digitação. Para mim foi tão claro em português que uma fala do Tyrion estava com erro de tradução que peguei a edição em inglês da minha mãe para conferir e eu estava certa; e sinceramente essa fala fica muito sem sentido do jeito que ela está na nossa língua. Enfim, nada disso estraga a história, que é fantástica mesmo para quem já viu a série, mas chateiam aqueles leitores mais sensíveis, principalmente aos que trabalham ou sempre sonharam em trabalhar no mercado editorial.

Nazismo latino americano

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Sempre me incomodou o fato de que, generalizando um pouco, o patriotismo do brasileiro surge de 4 em 4 anos e tem a duração de uma copa do mundo. Enquanto isso, nos Estados Unidos, por exemplo, muitas casas estendem a bandeira do país nas janelas diariamente, os filmes locais geralmente possuem a bandeira hasteada em alguma cena e nos pontos turísticos o emblema do sonho americano é vendido a preços acessíveis. No entanto, sabemos muito bem que o excessivo amor à nação é capaz de fazer, afinal, nada por melhor e mais bem-intencionado que seja é saudável quando levado ao extremo.

A autora Isabel Moustakas ilustrou bem a ideia fascista verde e amarela em seu livro Esta Terra Selvagem. O texto é por vezes revoltante, fiquei com raiva, nojo, desgosto da narrativa, mas impossível não dizer que ela é instigante e que li de capa a capa, assim, de uma vez só de tão entranhada que eu estava na leitura.

O livro é escrito em primeira pessoa e a história é contada por João, um jornalista do Estadão que conseguiu uma entrevista exclusiva com Martha, vítima de um sequestro asqueroso. Ela, com apenas 16 anos, parecia que já tinha passado pelo inferno e assim que termina de contar, assustadoramente calma, para ele tudo que lhe tinha acontecido ela se mata. Após esse acontecimento João recebe o diário da garota e através das anotações feitas nele que o jornalista vai conseguindo cada vez mais pistas do que está acontecendo. O sequestro de Martha tinha sido apenas um aviso e ela viveu justamente para poder espalhar a notícia de que o pior ainda estaria para acontecer.

Realmente, os crimes ficaram cada vez mais bárbaros e a gangue que os cometiam usava coturnos com cadarços verde e amarelo, camisa branca e cabeça raspada. A intenção deles era limpar o Brasil de tudo que consideravam ruim: estrangeiros, nordestinos, homossexuais e boêmios. E João estava mais envolvido com estes radicais do que sequer imaginava.

“Então, Ágata sugeriu que ele procurasse a polícia. Juro. Ele arregalou os olhos, e acho que eu também. Vai lá com essa sua careca, ela desafiou, essa camiseta suja, esses coturno, esse discurso de bosta. Vai lá, vai. Tomara que o escrivão seja cearense. Depois volta aqui e me conta no que deu.”

*post feito em parceria com o blog Um Metro e Meio de Livros