Falando sobre O Apanhador no Campo de Centeio

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Como dito no post anterior, O Apanhador no Campo de Centeio foi publicado por volta da década de 40 e teve uma repercussão bastante polêmica, mas por quê?

Voltado para o público norte americano jovem, que naquele momento não tinha muita participação cultural e política, o livro acabou se tornando uma grande influência para a geração. Isso porque durante muitos anos a adolescência não era vista com a mesma importância que se tem hoje em dia, os filhos eram obrigados a seguir os passos de seus pais dando continuidade às tradições familiares, com as quais muitas vezes não concordavam. Também é contra isso que, posteriormente, a geração beat e os hippies, por exemplo, vão à luta. Ao abordarem temas como liberdade e amor livre esses movimentos buscam a libertação dessas hierarquias familiares. Já Holden Caulfield, protagonista do livro, não possui a noção de dever familiar que era próprio da época.

Dessa forma, logo na primeira página nos deparamos com a raiva interna que influencia as ações do personagem:

“E, afinal de contas, não vou contar toda a droga da minha autobiografia nem nada. Só vou contar esse negócio doido que me aconteceu no último natal, pouco antes de sofrer um esgotamento e de me mandarem para aqui, onde estou me recuperando”.

Porém, a história em si não é violenta de uma forma explícita, pois o tempo todo vemos o personagem com questões internas tanto de ódio quanto de carinho pelas pessoas que o cercam. Como pelo seu velho professor de história que sentiu muito ao ter que reprovar esse aluno de quem ele gosta tanto, porém não teve como. Afinal, até o próprio Holden admite não ter o menor interesse pelo assunto ou pelos estudos em geral. A única matéria que ele aprecia é Inglês, aliás, é somente nela que Holden não foi reprovado. Para completar, ele estudava em Pencey, na Pennsylvania, um internato tradicional da época, e diz não gostar nem um pouco do lugar:

“A maioria dos alunos vinha de famílias riquíssimas, mas assim mesmo o colégio estava cheio de ladrões. Quanto mais caro um colégio, mais gente safada tem, no duro”.

Além disso explica que em sua escola anterior, Elkton Hills, ele nem foi reprovado, mas quis ir embora mesmo assim por causa do diretor que ele considerava um hipócrita. Pois, segundo o personagem, o diretor julgava os pais dos alunos pela aparência e só era educado com aqueles que se mostravam serem ricos.

Ao voltar para Nova York, Holden visita sua irmã mais nova, Phoebe, escondido e para ela revela que seu maior sonho é viver em um campo de centeio, o que justifica, ou pelo menos explica, o nome da obra. No entanto, essa revelação do personagem é uma alusão a um poema de Robert Burns mal interpretado pelo personagem. Mas isso é feito para mostrar o quanto o ele se sentia perdido e distante de tudo, como uma realidade à parte na qual se via como um reflexo de uma geração vivida no pós-guerra e massacrada pelas tradições autoritárias.

O livro, de uma forma geral, pode até parecer meio bobo para quem nunca o leu e apenas ouviu sua história resumida. Na verdade não entendi muito o motivo pelo qual essa história gerou tanta polêmica.

Falando de uma forma mais contextualizada, na época foi muito importante para os jovens oprimidos e acho que más interpretações levam pessoas a agirem de forma errada. Por exemplo, o assassino do músico ídolo de muitas gerações, John Lennon, morto com um tiro de Mark David Chapman, que disse ter se inspirado em tal livro para cometer o crime. Até mesmo a tentativa de homicídio por um outro adolescente, que tentou atirar em Ronald Reagan, e alegou ter tido a mesma influência.

Muitas discussões giram em torno dessa obra, mas para quem lê, assim como eu li, pode ficar sem entender o porque de tanto alarde por um livro que não tem alusões explícitas à violência, mas que indubitavelmente inspirou atos horríveis.

Pra finalizar, em um capítulo do desenho South Park os roteiristas fizeram uma brincadeira em que mostram seus personagens perplexos diante do livro. Como dito, na obra não há nada que deixe o leitor abismado com o texto, talvez ele engatilhe algo internamente nas pessoas, de uma forma mais sutil, alguns mais suscetíveis que outros. Mas nada que definitivamente fará você terminar o livro dessa forma, boquiaberto na página final.

 

 

 

 

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