Resgatando Raduan Nassar

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Quando terminei de ler Um Copo de Cólera meu primeiro ato foi mandar mensagens para meus amigos, eu precisava de alguém que já tivesse lido para me ajudar a digerir o texto. Mesmo com as más interpretações do título como “um copo de coleira” — onde talvez o personagem fosse um cachorro no bar? — ninguém tinha lido ou mesmo ouvido falar do livro em questão. Então recorri ao Alexandre Borges e a Julia Lemmertz que juntos interpretaram os personagens numa adaptação do livro para o cinema.

O filme, que é bem fiel, me ajudou bastante no quesito compreensão de conteúdo, mas continuei com algumas coisas engasgadas. Por isso, resolvi utilizar esse espaço para falar da história.

Não sabemos nome, nem idade daquele que fala conosco, o personagem principal narra a repentina quebra de paz entre ele e sua parceira. Após uma noite intensa de amor, ele é tomado por uma raiva profunda que reverbera nela e os dois engatam numa discussão. É exatamente nos diálogos da briga que me perco, em partes como (copiei do livro que é antigo, por isso mantive acentos e tremas):

“Você me faz pensar no homem que se veste de mulher no carnaval: o sujeito usa enormes conchas de borracha à guisa de seios, desenha duas rodelas de carmim nas faces, riscos pesados de carvão no lugar das pestanas, avoluma ainda com almofadas as bochechas das nádegas, e sai depois por aí com requebros de cadeira que fazem inveja à mais versátil das cabrochas; com traços tão fortes o cara consegue ser — embora se traia nos pêlos das pernas e nos pêlos do peito — mais mulher que mulher de verdade” “e?…” “e tem que isso me leva a pensar que dogmatismo, caricatura e deboche são coisas que muitas vezes andam juntas, e que os privilegiados como você, fantasiados de povo, me parecem em geral como travesti de carnaval”

— Nossa! Privilegiados fantasiados de povo são como travesti no carnaval. Será? Ou o autor leva pro deboche aquilo que é apenas empatia?

Também:

“é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco ­— cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta: me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja amor, amizade, a família, a humanidade;”

— Ok, ele me pegou aqui! Sou de humanas e realmente não sei o que sentir nessa passagem. Tudo se reduz mesmo a um ponto de vista? Eu amo uma piada?

Depois eles falam:

“entenda, seu delinqüente, que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta” “força bruta sem rodeios, sem lei que legitime” “estou falando da lei da selva” “mas que não finge a pudicícia, não deixa lugar pro farisaísmo, e nem arrola indevidamente uma razão asséptica, como suporte”

—Isso acaba com ele! Ou não, pera aí, o que ele falou?

E depois ela solta:

“Só usa a razão quem nela incorpora suas paixões”

— Sim! Com certeza, eu também acho.

O livro termina em paz, melhor dizendo, com os personagens em paz, porque eu fiquei inexplicavelmente mexida

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