Better Off Without Him – Dee Ernst

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Nna - 01-01-2016

Quero apresentar a vocês a Mona (não a minha amiga Monalisa, a quem carinhosamente chamo de mona), mas sim à personagem de Dee Ernst, Mona Quincy. Pelo título parece que estamos abrindo mais um chick lit (a.k.a literatura feminina clichê, que eu particularmente gosto muito, não estou a criticar o gênero) e como o livro é metalinguístico e a personagem principal uma escritora, no próprio livro essa questão de gênero literário se torna um assunto.

Mona tem 45 anos e em uma manhã comum, após deixar as três filhas na escola, ela vê o marido retornar ao lar mesmo depois de já ter saído para o trabalho. Eles engatam numa conversa perfeitamente normal, entre casais que moram juntos, sobre encanamento. Em um certo momento do diálogo, Brian, o marido, diz ter que falar sobre um assunto que ele vem esquecendo de mencionar. Bem, já que ele se lembrou Mona diz para ele falar logo antes que se esquecesse de novo. Então, é nesse momento que ele diz que está indo embora (“embora como?” ela pergunta) e ele — quase pegando um papel para desenhar para ela — explicita que está pegando todas as roupas dele e indo morar com uma outra mulher. Mona demora a entender e questiona sua própria inteligência. Afinal para ela essa mudança é repentina, estava feliz com o marido e o amava muito. Após esse ocorrido ela é obrigada a ir para a escola lidar com um incidente com uma das filhas, o que ela faz como se nada tivesse acontecido; depois, ao voltar para casa, liga para as amigas e para o bombeiro (hidráulico) deuso. Além disso, a tia maluca resolve fazer uma visita (permanente) e tudo fica muito confuso e engraçado. Inclusive o medo de Mona de ser culpada pela filha mais velha da traição.

“Miranda (daughter the first and the bitchy one) will say it’s my fault,” I said in a muffled voice. (…) “She’ll find a way. Remember last January, when the blizzard closed down the roads and she couldn’t get to the Green Day concert? That was my fault. And it was my fault when the cat coughed up a hairball on her dress for the freshman Formal last year”. I sank my head down the table. “She blamed me when Heath Ledger died”.

Tradução por mim:

“Miranda (a primeira filha e a que é reclamona) vai dizer que a culpa é minha” Eu disse numa voz abafada. (…) “Ela vai achar um jeito. Se lembra quando no ano passado em janeiro uma nevasca fechou as estradas e ela não conseguiu ir ao show do Green Day? Foi minha culpa. E também a culpa foi minha quando o gato vomitou uma bola de pelo no vestido da festa formal dos calouros ano passado”. Eu afundei minha cabeça na mesa. “Ela até me culpou quando o Heath Ledger morreu”.

Primeiramente, concordo com a Miranda, a filha reclamona, porque foi muito frustante quando aqui no Rio de Janeiro o show dos Guns n’Roses — ou no caso do Axl Rose ­—  foi adiado por causa de uma tempestade. Mas eu realmente não culpei minha mãe, apesar dela ter mania de jogar coisas fora e talvez se o ingresso tivesse sumido eu teria brigado com ela; já que foi o clima de março na cidade, eu não tive como culpar ninguém.

Em segundo lugar, Miranda realmente culpou a mãe, mas foi só por alguns minutos. Porque o covarde do marido, que retornou ao lar apenas para contar às meninas o que estava acontecendo, disse que a decisão tinha sido mútua e que ambos já estavam conversando sobre o assunto fazia um tempo. Obviamente, Mona não deixou barato e na frente do charlatão falou toda a verdade para as filhas e explicou que ela estava sendo abandonada.

Já que a tia maluca tinha chegado de surpresa, ela preparou o café da manhã seguinte e deixou a mãe — afinal, você pode ser “ex” tudo, menos ex-mãe — dormir mais um pouco. Ao acordar ela tomou um café rápido e foi para seu escritório, na verdade um aconchegante lugar em cima da garagem que ela tinha se dado de presente. Lá ela conta pro assistente o ocorrido e diz que não pode mais continuar a escrever o livro que havia começado: sobre uma jovem bem sucedida de 27 anos, que após terminar o breve casamento de um ano se vê entre dois grandes amores. Ela passa a querer escrever sobre ela mesma, ou sobre mulheres como ela, de 45 anos, divorciadas, sem um corpo escultural, sem juventude estarrecedora, sem um novo começo bombástico. Mulheres tangíveis, reais. O que obviamente gera uma discussão com a agente.

Ao propor a mudança de trabalho para “Oprah”, que é como conhecemos a agente, sobre um livro chamado “Better Off Without Him” a questão passa a ser que uma personagem de 45 anos não é apelativa. E ao saber que Mona não pretende fazer com que sua personagem termine em um outro casamento, mas sim rodeada de amigos e com um trabalho satisfatório, ou seja, ela quer focar em qualidade de vida, a agente pira e diz que é impossível. Pois assim ela não pode vender o livro como chick lit e agora nem como romance, ela terá, então, que fazer campanha do livro como “hen lit”.

— oi? O que é isso?

É uma categoria completamente machista, ao meu ver, pois uma personagem de 45 anos não pode ser chick lit, então deve ser hen lit, diminutivo de Matron Literature, gênero que se foca em protagonistas mais velhas, ou consideradas velhas para o mercado editorial. A agente e a empresária de Mona ficam nervosas, mas como ela tem 27 livros publicados e ficou famosa no meio de literatura histórica ela consegue uma chance.

Enfim, o livro é completamente apaixonante, Mona e as meninas. Eu o comprei ridiculamente barato numa promoção de e-books na amazon e queria tanto que as pessoas lessem que comecei a traduzi-lo sozinha, mas depois fiquei com medo da questão de direitos autorais. Dee ernst criou uma família cativante e apesar de eu ter apenas 27 anos me relacionei maravilhosamente bem com Mona. Ela nunca soube que o marido era um cafajeste e à medida que as pessoas vão lhe contando as coisas, ela vai se sentindo cada vez menos idiota, afinal o idiota é o cara que larga uma família da forma que fez. E infelizmente com se sentir idiota por descobrir de outros que o parceiro é babaca eu também posso me identificar.

Eu gostaria muito que todos conhecessem a Mona, a ideia de praticar encontro com os amigos, seus livros, suas viagens mentais românticas, a melhor amiga Patricia, Jessica, a filha gótica com quem minha adolescente interior simpatizou; Ben, o bombeiro deuso, Anthony e todos que fazem dessa história não um hen lit, mas um livro cômico, tangível, bem escrito e desenvolvido, e muito fácil de ler.

“Soaking wet I did not feel charming and vulnerable like Kate Winslet in Sense and Sensibility. I did not feel sexy and mysterious like Gene Tierney in Laura. I felt chilly and wet. I needed to be wrapped in soft, scented towels, and swept in front of a roaring fire and handed a snifter of very fine brandy.”

 Tradução por mim:

“Encharcada eu não me senti charmosa e vulnerável como Kat Winslet em Razão e Sensibilidade. Eu não me senti sexy e misteriosa com Gene Tierney em Laura. Eu senti frio e me senti molhada. Eu precisava ser embrulhada em uma toalha macia e cheirosa, e escoltada para a frente de uma fogueira estalando e receber um copo com um bom trago de conhaque”.

Ps: o livro é cheio de referências de outros livros e filmes, o que torna a experiência toda ainda melhor. Afinal, eu amo referência boas, mas quem não?

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  1. Hahaha! Mas Nana, você me citou! Eu adorei! 🙂
    Gostei muito da sua resenha. Primeiro, porque consegui te enxergar direitinho através dela, sua descontração, sua análise… Foi como se estivéssemos no Starbucks e você estivesse me contando sobre o livro.
    Eu nunca havia ouvido falar dele, aliás, e fiquei com vontade de ler. Acho que o que mais me deixou curiosa foi essa reação da Mona (e aí, xará, beleza?) quando o marido diz que está saindo de casa. Adoro coisas assim meio nonsenses… E é maravilhoso como as coisas nonsenses são as mais reais, já reparou? Porque a vida é exatamente assim, sem sentido claro.
    Seu blog está lindo, e tenho certeza de que ficará cada vez mais. Sucesso! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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