Arquivo mensal: janeiro 2016

Poema – Lawrence Ferlinghetti

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The World is a Beautiful Place – Tradução por Mariana Baptista

Poesia City Lights
O mundo é um belo lugar
para se nascer
Se você não se importar que a felicidade
nem sempre é
necessariamente divertida
Se você não se importar com um toque de inferno
de vez em quando
justamente quando tudo estava bem
porque mesmo no paraíso
eles não cantam
o tempo todo

O mundo é um belo lugar
para se nascer
Se você não se importar que as pessoas morram
o tempo todo
Ou apenas passem fome
parte do tempo
o que não é tão ruim
se não for com você

Oh o mundo é um belo lugar
para se nascer
Se você não se importar
com algumas cabeças ocas
nos mais altos escalões
ou uma bomba ou duas
de vez em quando
em suas cabeças erguidas
ou com algumas outras inconveniências
como a nossa sociedade de Marca
ser caça
dos homens de distinção
e dos homens de extinção
e seus padres
e outros homens das leis
e suas várias segregações
e conferências investigativas
e outras constipações
do qual nosso tolo existir
é herdeiro

Sim o mundo é o melhor lugar de todos
para muitas coisas como
fazer a cena divertida
ou a cena de amor
e fazer a cena triste
cantando baixo e se inspirando
dando voltas
observando tudo
e cheirando flores
e brincando com estatuas
e até refletindo
e beijando e
fazendo filhos e usando roupas
e abanando chapéus e
dançando
e nadando em rios
em picnics
no meio do verão
e de uma forma geral
vivendo a vida

Sim

mas bem no meio disso tudo
chega otimista
o tanatopraxista

Justificativa aos leitores

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Como eu escrevi — até um pouco demais — na resenha sobre O Encontro Marcado, o livro é divido em duas partes, no título de cada já temos um pouco da ideia do que está por vir. Porém não é sobre isso que quero falar hoje. A questão é: me perdoem se me excedi e contei demais da história. Fiz isso apenas porque amo muito esse livro e talvez para quem leu a resenha isso não ficou claro.

Fiz um texto que excede em informação, mas que peca em sentimento. Falei além da conta o que acontece no livro e não disse o motivo de tal esbórnia.

Na verdade quando o li pela primeira vez fiquei — e muito — angustiada. Assim como Eduardo, eu sonhava em ser escritora, mas falhava em escrever qualquer coisa. O único texto que eu havia escrito até dado momento se chamou Carta ao Vizinho —um dia o publico aqui no blog. Mas naquela época conseguir escrever era um sonho e uma luta, assim como para o personagem.

Além dessa identificação de frustração, o livro me ganha a cada palavra dita, trechos dessa obra que anotei num caderno para guardar para sempre. Na resenha eu falei demais? Sim! Pequei em passar meus sentimentos? Também. Mas nem tudo está perdido, quem ler o livro todo vai se deparar com passagens maravilhosas como a que me conquistou de primeira:

“Sentaram-se no banco e se calaram, tentando entender o silêncio. As palavras tinham um sentido além delas mesmas. O silêncio seria, sempre, o único meio de entendimento perfeito”.

Vários outros lirismos aparecem ao longo do livro e são sedutores, te fazem reler a passagem e querer tatuar na pele para guardar sempre ali, no alcance de uma saudade.

Como por exemplo:

“Seu erro fundamental é lembrar em vez de recordar. Há uma diferença entre lembrar e recordar; recordar é reviver, lembrar é apenas saber. O que é recordado fica, o que é lembrado é também esquecido”.

Depois que li essa passagem, tudo que acontece e me deixa feliz eu fecho os olhos, respiro aquilo e tento guardar a recordação, justamente porque eu não quero só lembrar, quero reviver. Às vezes antes de dormir fico reimaginando algo que aconteceu, assim acredito que sou especial, que recordo e não apenas lembro. Fora que todo mundo quer ser especial, em alguns momentos só para uma pessoa específica, em outros há uma vontade de se sentir diferente de todos. Seja como for, recordando e não apenas lembrando é minha maneira de me sentir assim.

Para quem não se identificar com o personagem, tudo bem, não é necessário isso para que um livro seja bom. Mas saiba que ele guarda angústia, felicidade, medo e muita poesia em suas páginas. Seja você alguém que almeje ser escritor, ou apenas um leitor com vontade de assimilar textos incríveis. Esse é O livro.

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Um mundo sem Sherlock Holmes

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Post feito em parceria com o blog Literasutra.

Se eu tivesse que descrever o livro em uma palavra seria “reviravolta”. O que não é nada de novo em se tratando de um livro policial. Mas é que a reviravolta ultrapassou a metalinguagem e veio até mim, que começou a ler Moriarty achando o livro bobo e que com certeza já tinha lido inúmeros livros de mistérios melhores. Só que a história realmente me surpreendeu e acabou sendo diferente e muito boa. Não estou comparando o autor com os mestres do gênero, mas não fica tão aquém.

Então, Sherlock Holmes morreu e agora o que acontece? Criminosos esbanjam confiança na ausência do inspetor, a polícia não sabe nem por onde começar e outros investigadores passam a se dividir em dois grupos: os que acham a morte de Holmes uma chance para brilhar e aqueles que pensam na perda total; da pessoa que ele era e de suas visões brilhantes sobre um fato.

A história em si é muito palpável, o personagem que nos conta os acontecimentos, Chase, muitas vezes não percebe uma pista que está quase ganhando vida para gritar “estou aqui! Leia-me”. O que provavelmente seria eu na cena de uma investigação, -constantemente vou na cozinha e esqueço o que fui fazer – creio que eu perderia o foco rapidamente.

Só que (ainda bem!) as investigações não dependem somente desse personagem. Temos o inspetor da Scotland Yard, Sr. Jones. Ele ocupa a lacuna vazia que Holmes deixou. Mas não, ele não é nenhuma aberração da natureza que sabe a sua altura pelas pegadas que você fez na grama. Na verdade, Jones é admirador do famoso consultor e já foi várias vezes menosprezado em relatos de Watson. Com o ego muito ferido por ter deixado escapar tantas pistas elementares, o novo inspetor em cena aproveita um momento de forçada reclusão e estuda minuciosamente todo o material já publicado por Holmes. Além disso, sempre recorre aos escritos do ídolo em momentos de dúvida. Assim, ele passa a exercer a função de observador extraordinário, deixando para Chase o papel de idiota que não reparou o que era óbvio. (Para falar a verdade, em alguns momentos até eu percebi antes de Chase o que acontecia).

A obra flui, não cansa e mantém o leitor curioso. Comecei a minha leitura e quando percebi já estava na metade e o sol nascendo. Foi uma experiência ótima terminar adorando um livro que comecei desdenhando do texto!

O Encontro Marcado

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O Encontro Marcado está dividido em duas partes: A Procura e O Encontro e conta a história de Eduardo Marciano, também considerado o alterego de Fernando Sabino.

Conhecemos Eduardo ainda menino em Belo Horizonte, na primeira parte do livro, ele faz chantagem emocional em seus pais chorando e arranhando o rosto até sair sangue, assim sempre conseguia o que queria. Sua primeira perda foi quando assaram para um almoço de domingo Eduarda, a galinha de estimação, e entre lágrimas e soluços se deliciou com o prato. Já quando estava um pouco mais velho perdeu seu amigo Jadir, com quem na noite anterior à morte conversava sem saber o que viria a acontecer:

 “(…) eu, se tivesse de suicidar, antes havia de fazer uma porção de coisas, um estrago louco. Matava o presidente da República, qualquer coisa assim. Morria, mas passava para a história.”

Um tempo depois, ao se formar na escola, Eduardo combina com seus amigos que se encontrariam ali novamente após 15 anos, mesmo que a vida já tivesse feito com que não se falassem mais. Após formado ele vai trabalhar na repartição pública onde conhece a carioca Antonieta, filha do ministro. O romance passado entre as duas cidades brasileiras acaba por ter o apoio do pai da menina e aos 20 anos de idade os dois se casam. Eduardo se muda para o Rio de Janeiro onde passa a trabalhar em um emprego conseguido pelo sogro.

Já adulto e casado o personagem passa a questionar todas as suas decisões, havia se afastado de tudo que antes lhe era comum, sua cidade, sua família, seus amigos. Nesse momento de questionamento se lembra do velho pai reclamando que o filho fazia tudo depressa demais, falava rápido e não tinha nem tempo para pensar. Eduardo concluiu que essa ganância que tinha por viver que antes lhe fazia diferente agora o torturava. Esse momento de interiorização do personagem marca o final da primeira parte.

“Pois então o que é que estou fazendo aqui, sozinho? Não sou um homem? um marido, não sou? Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando mas não vejo onde nem por quê”.

Eduardo não consegue se livrar de seu egoísmo exagerado, deixa sempre a esposa e os compromissos com ela por último, primeiro a bebida e os amigos. Para ele o álcool era uma espécie de anestésico para aliviar a dor de seus tormentos e depressão diante de suas dúvidas. Tudo nele mostra uma incapacidade de lidar com os fatos da vida, quer ser escritor, mas nunca consegue escrever e acaba descontando em Antonieta. Ela passa a ser o fator de harmonia do casamento, sempre tentando ser compreensiva com o marido. À medida que o tempo passa parecem apenas se afastar mais um do outro. Essa separação espiritual se torna física com Gerlane, com quem Eduardo passa a ter um romance escondido.

O tempo todo a vida de Eduardo é rodeada pela morte começando com Eduarda, depois seu amigo e indo até seu filho, ainda no ventre de Antonieta. Sentiu-se culpado, acabou carregando o peso do aborto em si, decorrência da vida desleixada que levava. Um dia Antonieta pediu carinhosamente para que o marido ficasse em casa, mas ele nem ouviu seu pedido, saiu sem olhar para trás, e, ao voltar, a casa estava esvaziada.

Após isso ele viaja para sua cidade natal com intuito de visitar a mãe, que não via fazia tempo. Durante sua estadia se lembrou do encontro marcado, mas foi o único que cumpriu a promessa. Já não falava mais com os amigos e na verdade nem se lembrava ao certo de com quem estava quando combinaram o reencontro.

Ao voltar para o Rio, Eduardo começa um caso com a vizinha Neusa, que também engravida e posteriormente aborta. Com tudo que acontece ele se cansa dessa velha vida que leva e decide viajar. Pede demissão mesmo sabendo que estava prestes a ser promovido e larga tudo.

Seguindo seu novo caminho, ele para em frente a um convento e pensa em subir de joelhos, para que assim talvez sua sorte mude. Na porta, lá no alto da ladeira, avistou a figura de um monge acenando para ele. Era um conhecido, um grande amigo perdido no tempo, no meio da pressa e agressividade de Eduardo por viver havia se esquecido daquela pessoa de quem ele gostava tanto. Assim, rindo muito, Eduardo sobe a ladeira calmamente e abraça o monge, dando início a uma nova fase em sua vida, talvez mais calma e serena, mas ele já não se importa, nem com o que está por acontecer a partir desse encontro.

 

Bukowski

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“Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos.”

Bukowski, O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio

Por que reler Harry Potter?

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Esses dias resolvi reler Harry Potter e a Pedra Filosofal, não sei se a vontade teve a ver inconscientemente com a perda de Alan Rickman, mas mesmo assim cedi aos meus impulsos. Revendo o que há tempos não lia e que estava na minha memória apenas por causa dos filmes, reencontrei o velho arrepio, a felicidade e a saudade. Então listo aqui 7 motivos para aguçar sua vontade de reler também.

0.A nova edição linda, muito bem trabalhada nos detalhes e nas ilustrações (e além disso se você botar lado a lado na estante as lombadas formam a imagem de Hogwarts).

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1. Dumbledore falando da cicatriz no joelho esquerdo dele.

“Mesmo que pudesse, eu não o faria. As cicatrizes podem vir a ser úteis. Tenho uma no joelho esquerdo que é um mapa perfeito do metrô de Londres.”

2. O arrepio que dá ao ler sobre o menino que sobreviveu.

“nesse mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em todo o país que erguiam os copos e diziam: — A Harry Potter: o menino que sobreviveu!”

3. Tio Válter ameaçado com um guarda-chuvas rosa.

“Ameaçado de ser furado pela ponta de um guarda-chuva por um gigante barbudo, a coragem de tio Válter fraquejou outra vez;”

4. Depois de encontrar Hagrid, Potter volta para viver com os Dursley por mais um mês antes das aulas começarem e nesse tempo vemos um Duda com medo de seu primo e ainda com o rabo de porco.

“—Vamos ter que levar Duda ao hospital — rosnou tio Válter — precisamos mandar cortar aquele rabo vermelho antes de mandá-lo para Smeltings.”

5. O fantasma Pirraça (eu não lembrava mesmo dele).

“— Não digo nada se você não ‘pedir por favor’— disse Pirraça na cantilena irritante com que falava
— Está bem, por favor
— Nada! Ha haaa! Eu disse a você que não dizia nada se você não pedisse por favor! Ha ha! Haaaaaa! — E ouviram Pirraça voar rápido para longe e Filch xingar com raiva.”

6. Hagrid se achando a mamãe pata com um dragão.

“— Decidi chamá-lo de Norberto — anunciou Hagrid, olhando para o dragão com olhos sonhadores. — Ele realmente sabe quem eu sou, olhem. Noberto! Norberto! Onde está a mamãe?”

7. Porque é monstruoso matar unicórnios e pensei, ao ler a descrição, que não só eles, mas é monstruoso qualquer maldade com qualquer animal.

“— Porque é uma coisa monstruosa matar um unicórnio. Só alguém que não tem nada a perder e tudo a ganhar cometeria um crime desses. O Sangue de unicórnio mantém a pessoa viva, mesmo quando ela está à beira da morte, mas a um preço terrível. Ela matou algo puro e indefeso para se salvar e só terá uma semivida, uma vida amaldiçoada, do momento que o sangue lhe tocar os lábios.”

 

Tigres em Dia Vermelho

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Essa história é sobre uma família, sobre amor e intrigas. Amor entre duas primas que são como irmãs, entre mães e filhos, marido e mulher, e amigos. Mas no amor tem o ódio, mesmo que em alguns momentos, o desentendimento, o egoísmo e a incompreensão.

O livro não está escrito em um estilo que eu particularmente gosto muito, pois ele se divide em 5 partes e cada qual é narrada por um dos integrantes da família. O problema com esse tipo de leitura, ao meu ver, é que acabamos por gostar mais de um ou dois personagens em detrimento dos outros e quando a parte contada pelo personagem querido acaba é como se o livro tivesse perdido um pouco a graça. Mas, afinal, os outros personagens interagem entre si e acabam falando também sobre aquele queridinho, só que mesmo assim há uma espécie de perda narrativa que eu não gosto de sentir. Veja bem, às vezes isso funciona, Game of Thrones é assim e não me incomoda tanto — até porque dependendo de quem é a história eu acabo pulando o capítulo — e de qualquer maneira há sempre o retorno para os personagens (se sobreviveram) preferidos.

Tigres em Dia Vermelho me prendeu devido ao mistério em torno do encontro de um corpo. Na verdade, no começo eu não liguei muito para essa morte, pois não fazia sentido para mim ela estar ali no livro. Somente depois, que um dos personagens se mostra envolvido que realmente me interessei pelo fato, afinal o assassinato era de uma pessoa nada a ver com tudo que havia acontecido até o momento e não tive o entendimento do porque ela estava ali, bem, no final até que tem um porque bem interessante.

Sobre os personagens e seus capítulos temos:

Nick (A peste)

“Ele que se dane, pensou Nick, que vá para o inferno. Era para eles serem diferentes, diferentes de todas as pessoas que não queriam coisas e não faziam coisas e que não eram especiais. Era para serem o tipo de gente que diz ‘dane-se’, e então joga a taça de vinho na lareira, que pulam de precipícios. Não era para serem pessoas cuidadosas.”

Helena (Coitada)

“Sempre a mais boazinha, a mais pobre, sem nada que fosse só seu. A menina bonita com que os garotos sabiam que podiam implicar sem que nada acontecesse; assustada e humilhada e pequena demais para deletá-los. Sempre agradecendo por todas as pequenas gentilezas que lhe faziam (…) como se não merecesse. Mas ela merecia. Merecia ser feliz.”

Daisy (Determinação)

“Com a final individual marcada para o dia seguinte à festa, Daisy estava treinando desesperadamente. Voltara a roer as unhas, hábito que abandonara havia anos, desde que a mãe, em um ataque de raiva, lhe aplicara tabasco nas unhas duas vezes por dia. Beleza é saber se comportar. Ela até se pegara chorando ao fim de cada aula. Não sabia bem por quê, só sabia que era bom sentar e extravasar.”

Hughes (Confuso)

“Esse tempo todo você viveu como um sonâmbulo. Acha que eu sou idiota? Você vem me falar em cartas. Que tal ‘o mundo não está mais em chamas, Hughes’; ‘Volte para mim, Hughes’? Que tal ‘Claridge’s, Quarto 201’? (…) Você deveria me amar. Em vez disso, você transformou tudo em um vazio. Tornou minha vida cinzenta.”

Ed (O pesquisador)

“Tia Nick não fazia parte do mar de mesmice. Ela exercia certo fascínio sobre mim, era algo em seu jeito de andar, mas eu não gostava muito dela. E, em muitos aspectos, por debaixo de sua aparência incomum, ela era exatamente igual a todo mundo. O mundo parecia formado por dois tipos de gente: os como eu e Daisy, que viviam o mais honestamente que podiam, e o resto, pessoas que por variadas razões não conseguiam deixar de mentir para si mesmas.”